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Desejo-servil e drogas de aprimoramento cognitivo: Epidemia do uso de anfetaminas e o padrão de normalidade... alguns pensamentos




Ontem a noite, despretensiosamente, decidi assistir um filme no Netflix... Daí fui atrás de uma indicação de um amigo que trabalha com Redução de Danos e uso de drogas. Não queria novidade, não queria sobressaltos, no máximo queria um pouco mais de dados para as aulas e debates onde me faço presente. Contudo, não foi bem isso que aconteceu.
O documentário se chama "Take your pills" (2008) e vem versando sobre as anfetaminas e metanfetaminas desde o seu descobrimento, no início do século XX, até os dias de hoje. A atual banalização das drogas prescritas por médicos enquanto droga do aprimoramento cognitivo, deflagra uma roupagem sinistra do que Michel Foucault, filósofo francês, chama de biopoder.
Este se caracteriza pelo controle das massas em níveis orgânicos, sempre associados a questões de saúde das massas: "fazendo viver e deixando morrer". Contudo, esse processo de medicalização da vida, apesar de se fortalecer a partir da invenção e ratificação do Déficit de Atenção e Hiperatividade, tem ganhado terreno e força no campo discursivo se afirmando enquanto "aprimoramento cognitivo". 
No documentário fica claro uma intensa busca em relação a esse "aprimoramento" onde jovens e adultos recorrem a ela para trabalhar mais, ter mais foco, ter mais energia para as tarefas, conseguir finalizar uma partida de futebol americano mesmo lesionado.
O capitalismo enquanto máquina de produção de sentido de mundo sempre produziu um corpo útil para seus fins, mas sempre existiu um algo que escapa... e algumas (muitas) vezes esse "vazamento" é recapturado pela lógica capitalista enquanto objeto de discursos de saber-poder, ora pelo discurso médico, ora pelo discurso legal... e algumas vezes pelo entrecruzamento dos dois... inclusive O que vemos na atualidade através desse documentário é que se produziu um consumo endêmico das anfetaminas em nome do melhoramento dos desempenhos. Em nome do melhoramento da normalidade! Se a normalidade, em si, enquanto fruto de discursos hegemônicos, é quem pauta o que é anormalidade; a prescrição e o uso de anfetaminas para fins servis ao capital está a produzir uma nova linha de corte para esta normalidade. Neste sentido, quem não se voluntariar no projeto de aprimoramento cognitivo, em breve entrará no hall dos patologizáveis, sendo prescritos os referidos medicamentos para que seja alcançada a nova normalidade. E as recusas e resistências ao vortex da normalidade será entendido enquanto agravante do quadro em tela... 
Enfim, precisamos nos ocupar dessa modulação do desejo-servil capitalistico com urgência e seriedade... Esse documentário tem várias outras entradas de debate, mas encerro minha escrita por aqui e deixo o trailer do filme abaixo...  

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